Cultura / Justiça
Após condenação, Leo Lins lacra celulares de plateia e retoma piadas com minorias em novo show
Comediante ironiza sentença de 8 anos e reforça discurso sobre liberdade de expressão; espetáculo aborda temas como racismo, LGBTQIA+, deficiência e pedofilia
07/07/2025
16:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
Condenado em primeira instância a oito anos e três meses de prisão por crime de preconceito, o humorista Leo Lins voltou aos palcos com a turnê “Enterrado Vivo”, marcada por piadas polêmicas com minorias sociais. Para evitar novos processos, o comediante proíbe gravações durante o show e lacra os celulares do público em sacos pretos, sob orientação de seus advogados.
A reportagem da Folha de S.Paulo acompanhou uma apresentação no último domingo (6), no Teatro Sir Isaac Newton, na zona norte de São Paulo. O espaço, com capacidade para 550 pessoas, recebeu dois espetáculos no mesmo dia — ambos lotados.
Logo no início da apresentação, um aviso no telão adverte sobre a proibição de gravações, transcrições ou veiculações de trechos do stand-up, amparado na Lei de Direitos Autorais. Segundo o artista, o objetivo é blindar juridicamente o conteúdo do espetáculo, que volta a recorrer ao humor agressivo e temas sensíveis.
Durante cerca de uma hora, Leo Lins fez piadas envolvendo escravidão, pessoas com deficiência auditiva, população LGBTQIA+, racismo, obesidade, HIV e pedofilia. Voltou a atacar Preta Gil e Thais Carla, figuras que já o processaram no passado. Também criticou jornalistas e fez alusões ofensivas à morte de Paulo Gustavo.
“Esse show, realmente, precisei alterar. Está mais light. Vou começar com um tema leve: escravidão”, ironizou na abertura.
Entre as falas, o comediante sugeriu que o fim do racismo "prejudicou os brancos", pois “perderam mão de obra gratuita”. Pessoas com deficiência auditiva foram comparadas a focas, e os gestos em Libras foram descritos como “reunião de maestros”.
Na sigla LGBTQIA+, o símbolo “+” foi associado a pessoas com HIV. Sobre Thais Carla, repetiu insultos, dizendo que seus movimentos no palco seriam “a rotação e a translação”. A respeito de Preta Gil, ironizou seu diagnóstico de câncer como uma “resposta divina” a uma ação judicial movida pela artista.
Ao longo do show, Lins justificou suas falas como parte de um personagem artístico, e não como opiniões pessoais. Para ele, as críticas e condenações fazem parte de uma tentativa de “sepultar sua reputação” por meio de decisões judiciais e cobertura midiática.
Em um momento, o comediante mencionou a diferença entre piadas e ações reais:
“Se eu visse um padre transando com um coroinha numa igreja, não ia rir. Pedofilia não tem graça. Mas piada com pedofilia pode ter.”
Ele chegou a zombar da morte de Paulo Gustavo, vítima da Covid-19 em 2021, dizendo que o ator “só foi cancelado pelo coronavírus”.
Lins também atacou uma jornalista do jornal O Globo, a quem chamou de “puta”, por ter divulgado trechos de shows anteriores. Fez ainda insinuações de que um repórter da Folha estaria presente na plateia.
A sentença que condena Leo Lins ainda está em fase de recurso, e o comediante responde em liberdade. O caso se refere a um show de 2022 publicado no YouTube, cujas falas foram classificadas como discurso preconceituoso pelo Ministério Público.
O episódio reacende o debate entre os limites da liberdade de expressão no humor e os impactos de piadas que atingem minorias sociais. Juristas e artistas seguem divididos: enquanto uns defendem o humor como espaço artístico protegido, outros apontam para o uso reiterado do palco como espaço de violência simbólica.
Após o espetáculo, Lins posou com fãs para fotos e ofereceu livros de piadas. Quem comprasse os livros ganhava prioridade na fila. O evento teve ainda abertura com Edegar Agostinho, comediante apadrinhado por Lins, que fez um número mais ameno.
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