Política Internacional
Trump ou Delcy: quem, afinal, governa a Venezuela após a queda de Maduro?
Declarações do presidente dos EUA e da presidente interina venezuelana expõem disputa política e contradições sobre o comando do país
07/01/2026
06:45
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
Mesmo após a deposição de Nicolás Maduro e a instalação de um governo interino, o comando efetivo da Venezuela segue envolto em incertezas. Declarações recentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e da presidente interina venezuelana, Delcy Rodríguez, evidenciam uma disputa política e narrativa sobre quem, de fato, exerce o poder no país.
No último sábado (3), Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram capturados por forças norte-americanas e levados a Nova York para julgamento. A denúncia apresentada pela Justiça dos EUA afirma que Maduro teria comandado, por mais de 20 anos, uma rede criminosa de Estado voltada ao envio de cocaína para território americano.
Além de Maduro e Flores, também foram citados Diosdado Cabello, o deputado Nicolás Maduro Guerra — filho do ex-presidente — e outros aliados do regime, apontados como integrantes ou facilitadores da suposta organização. As acusações incluem narcoterrorismo, tráfico internacional e lavagem de dinheiro, com penas que variam de 20 anos à prisão perpétua. Maduro se declara inocente.
Em pronunciamento transmitido pela televisão estatal venezuelana na terça-feira (6), Delcy Rodríguez afirmou que nenhum agente externo governa a Venezuela, rebatendo diretamente declarações feitas por Trump.
“O governo da Venezuela exerce o poder em nosso país, e mais ninguém. Não há agente externo que governe a Venezuela”, declarou.
A fala foi uma resposta direta ao presidente norte-americano, que, em entrevista à NBC News na segunda-feira (5), afirmou estar no controle da Venezuela. Questionado sobre quem governa o país, Trump respondeu de forma direta: “Eu”.
Na mesma entrevista, Trump citou, pela primeira vez, um núcleo do alto escalão dos EUA envolvido nas decisões sobre a Venezuela. Segundo ele, participam das articulações o secretário de Estado Marco Rubio, o secretário da Defesa Pete Hegseth, o vice-chefe de gabinete da Casa Branca Stephen Miller e o vice-presidente JD Vance.
“Nós vamos administrar o país até o momento em que for possível garantir uma transição adequada, justa e legal”, afirmou Trump.
Pela Constituição venezuelana, em caso de ausência do presidente, o poder é transferido à vice-presidente — cargo então ocupado por Delcy Rodríguez. No mesmo dia da captura de Maduro, o Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela determinou que ela assumisse interinamente a Presidência, com a missão de “garantir a continuidade administrativa e a defesa integral da Nação”.
No domingo (4), as Forças Armadas venezuelanas reconheceram oficialmente Delcy como presidente interina. O ministro da Defesa, Vladimir Padrino, declarou apoio público à sua permanência no cargo por 90 dias. A posse formal ocorreu na segunda-feira (5).
Com isso, no plano interno, Delcy passa a contar com respaldo institucional do Judiciário e dos militares.
Apesar do discurso de Trump, a posição oficial dos Estados Unidos em organismos internacionais mostra contradições. No Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, o governo americano negou qualquer ocupação militar ou estado de guerra contra a Venezuela.
O embaixador dos EUA na ONU, Michael Waltz, afirmou que a operação que resultou na captura de Maduro foi jurídica, e não militar. “Não há guerra contra a Venezuela nem contra o seu povo. Não estamos ocupando um país”, declarou.
Ao mesmo tempo, Trump afirmou que Delcy Rodríguez mantém cooperação com os Estados Unidos, por meio de contatos frequentes com o secretário Marco Rubio. Segundo ele, essa relação tem sido “forte” e determinante para a atual postura americana.
Trump também declarou que não pretende autorizar novos ataques enquanto a cooperação continuar, mas deixou claro que a posição pode ser revista caso haja mudança de postura por parte do governo interino venezuelano.
Com apoio interno consolidado e pressão externa explícita, a Venezuela vive um momento de dupla narrativa de poder. Enquanto Delcy Rodríguez exerce a presidência com respaldo institucional no país, Donald Trump sustenta publicamente que Washington conduz a transição. O desfecho desse embate político e diplomático segue indefinido.
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