Artigo
Quanto dos seus medos não são seus?
12/01/2026
08:30
WILSON AQUINO
WILSON AQUINO*
Muitos jovens e adultos vivem hoje uma espécie de imobilidade silenciosa. Estão empregados, inseridos socialmente, mas estagnados. Não avançam profissionalmente, não buscam novos conhecimentos, não arriscam mudanças que poderiam melhorar sua condição financeira e emocional. O motivo, quase sempre, não é falta de talento ou oportunidade — é medo.
Medo de fracassar. Medo de errar. Medo de tentar e não corresponder às expectativas. Medo de se expor. Medo de sair do lugar conhecido. Outros, diante de qualquer possibilidade de crescimento, passam a criar obstáculos mentais e justificativas que os mantêm exatamente onde estão. O ponto central dessa discussão é que muitos desses medos não são naturais do indivíduo. Foram aprendidos.
Estudos científicos demonstram que o ser humano nasce com poucos medos instintivos, ligados à autopreservação. Em experimentos amplamente divulgados, bebês foram colocados em ambientes controlados ao lado de animais como cobras não peçonhentas e não agressivas. As crianças interagiram com curiosidade e tranquilidade, sem qualquer sinal de temor. Em outro cenário, quando expostas a uma simulação de desnível profundo do piso da sala, reagiram com recuo, bloqueio e choro.
A conclusão dos especialistas é clara: existem alarmes naturais, como o medo de cair, de se queimar, de sofrer dor intensa. Esses medos protegem a vida. Porém, uma grande quantidade de temores que carregamos na juventude e na vida adulta não nasce conosco. É ensinada, repetida e reforçada ao longo da infância. E aqui surge uma pergunta essencial para reflexão pessoal e coletiva: quanto dos seus medos realmente são seus?
Pais, responsáveis e educadores exercem papel decisivo nesse processo. Muitas vezes, sem perceber, incutem medo nas crianças por meio de frases aparentemente inofensivas: “não mexe aí”, “isso não é pra você”, “vai se machucar”, “vai dar errado”, “não dá conta”. Outras vezes, usam ameaças simbólicas, punições emocionais, humilhações públicas ou comparações constantes. A criança aprende cedo uma regra perigosa: tentar é arriscado demais.
Com o passar dos anos, esse aprendizado se transforma em medo de errar, medo de decepcionar, medo de não ser suficiente, medo de parecer ridículo. Ninguém nasce com isso. São crenças construídas. O cérebro, ao associar tentativa com dor emocional, cria um comando automático: evite.
O adulto passa então a se definir como cauteloso, realista, prudente. Mas, muitas vezes, isso não é maturidade. É um medo antigo disfarçado de sensatez. O resultado é conhecido: decisões adiadas, sonhos engavetados, talentos reprimidos. Já não se trata de fugir de perigos reais, mas de fugir da possibilidade de crescimento.
Em contraste, algumas culturas adotam um caminho diferente. Em muitas famílias muçulmanas, por exemplo, as crianças são educadas desde cedo para enfrentar desafios, desenvolver disciplina, responsabilidade, coragem e resiliência emocional. Aprendem que obstáculos fazem parte da vida e que superá-los é condição para amadurecimento e vitória pessoal. Não se trata de dureza, mas de preparação consciente para a realidade.
A boa notícia é que todo medo aprendido pode ser desaprendido. Isso não ocorre por meio de discursos motivacionais vazios, mas por consciência, pequenas exposições e experiências reais. Um passo de cada vez. Um teste honesto daquilo que sempre foi evitado.
Sob uma perspectiva espiritual, a Bíblia é clara ao afirmar que o medo paralisante não procede de Deus. O apóstolo Paulo ensina: “Porque Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, de amor e de moderação.” (2 Timóteo 1:7) O medo excessivo enfraquece, limita e afasta o indivíduo de seu potencial. Já a confiança, alicerçada na fé, fortalece e impulsiona. O salmista declarou: “O Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei?” (Salmos 27:1)
Líderes de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias também têm abordado esse tema com clareza. O presidente Dallin H. Oaks afirmou que “a fé em Jesus Cristo nos liberta do medo que nos impede de fazer o bem, de crescer e de nos tornar aquilo que Deus espera de nós”. Segundo ele, quando o medo governa, o potencial divino do ser humano fica sufocado.
Russell M. Nelson ensinou que “a fé verdadeira sempre conduz à ação” e que o medo é um dos maiores obstáculos ao progresso espiritual e pessoal. Para ele, confiar em Deus significa agir, mesmo quando o caminho parece incerto.
Talvez, portanto, o que paralisa muitas pessoas hoje não seja instinto. Talvez seja apenas uma crença antiga, nunca testada, nunca confrontada. E, em muitos casos, o problema não está no mundo lá fora — está no medo que alguém colocou dentro de nós.
Fica aqui um convite sincero à reflexão: que possamos revisar nossos próprios medos e, principalmente, cuidar das palavras, atitudes e exemplos que oferecemos às crianças e jovens sob nossa responsabilidade. Educar não é proteger do mundo a qualquer custo, mas preparar para enfrentá-lo com fé, coragem e confiança em Deus.
*Jornalista, Professor e Escritor
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