Palmas (TO), Terça-feira, 16 de Junho de 2026

Política / Internacional

Lula critica protecionismo e cobra solidariedade global em reunião do G7

Presidente defendeu cooperação internacional, combate ao crime organizado com respeito à soberania e mais recursos para países em desenvolvimento

16/06/2026

16:30

DA REDAÇÃO

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) usou a sessão ampliada da cúpula do G7, nesta terça-feira, 16 de junho, em Évian, na França, para cobrar maior compromisso dos países ricos com o desenvolvimento global e criticar o avanço do protecionismo nas relações internacionais.

Em discurso na sessão dedicada ao tema “Firmar novas parcerias e reconstruir a solidariedade internacional”, Lula afirmou que o mundo enfrenta crises simultâneas, mas vê a cooperação entre países perder força justamente no momento em que deveria ser ampliada.

Os desafios se multiplicam, mas a solidariedade internacional encolhe”, afirmou o presidente brasileiro.

Sem citar diretamente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Lula fez críticas ao unilateralismo e ao protecionismo, marcas da atual política comercial norte-americana. Segundo ele, respostas isoladas não resolvem problemas globais e podem agravar desigualdades entre países ricos e nações em desenvolvimento.

O presidente também defendeu uma revisão das políticas econômicas adotadas nas últimas décadas. Para Lula, o mundo ficou preso a dogmas baseados em desregulamentação de mercados, Estado mínimo e austeridade fiscal como objetivos em si mesmos.

Na avaliação do brasileiro, esse modelo ampliou desigualdades e contribuiu para a crise política enfrentada por democracias em diferentes regiões. “O protecionismo e o unilateralismo ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas”, disse.

Lula também abordou o combate ao crime organizado transnacional. O presidente afirmou que o narcotráfico aterroriza comunidades, consome recursos públicos e não pode ser enfrentado de forma isolada, sem considerar crimes associados, como lavagem de dinheiro e tráfico de armas.

Apesar da defesa de maior cooperação internacional, Lula ressaltou que qualquer esforço nessa área precisa respeitar a soberania dos países. “Esse esforço deve levar em conta o respeito à soberania dos Estados”, afirmou.

A fala ocorre em meio à reação do governo brasileiro à decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. O governo Lula rejeita esse enquadramento e sustenta que as facções brasileiras devem ser tratadas como organizações criminosas voltadas ao lucro.

No discurso, o presidente defendeu que o enfrentamento ao crime organizado ocorra por meio de cooperação institucional e citou a Interpol como caminho adequado para ampliar a troca de informações entre países. Lula deve se reunir em Genebra, nesta quarta-feira, 17 de junho, com Valdecy Urquiza, secretário-geral da organização e primeiro brasileiro a ocupar o cargo.

O encontro deve contar também com a presença do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. A agenda faz parte da estratégia brasileira de reforçar a cooperação policial internacional sem abrir espaço para ações estrangeiras diretas em território nacional.

Esta foi a décima participação de Lula em cúpulas do G7 ou G8. A primeira ocorreu também na cidade francesa de Évian, em 2003. Ao relembrar essa trajetória, o presidente disse que, em todas as reuniões, líderes mundiais trataram de crises profundas, mas poucas respostas duradouras foram construídas.

Desde aquele ano estive em outras nove cúpulas do G8 ou G7. Em todas elas nos defrontamos com crises e desafios que afetam milhões de pessoas ao redor do mundo. Mas em nenhuma conseguimos construir respostas coletivas e duradouras”, declarou.

Lula citou cortes em programas internacionais para ilustrar o que classificou como retração da solidariedade global. Segundo ele, a ajuda oficial ao desenvolvimento caiu 23% no ano passado, o Programa Mundial de Alimentos perdeu cerca de 40% de seu financiamento e organismos como OMS e Unicef enfrentaram reduções orçamentárias superiores a 20%.

Não são cifras abstratas. Elas impactam diretamente o cotidiano dos habitantes de países em desenvolvimento”, afirmou.

O presidente também criticou a estrutura financeira internacional. Segundo Lula, países em desenvolvimento transferem cerca de US$ 1,4 trilhão por ano em serviço da dívida, valor que seria sete vezes superior à ajuda recebida dos países ricos.

Precisamos de um sistema no qual os países não sejam obrigados a escolher entre pagar credores e alimentar suas crianças”, disse.

Na pauta ambiental, Lula defendeu que o financiamento climático global seja ampliado para ao menos US$ 1,3 trilhão por ano. Ele também criticou a distância entre os compromissos assumidos por países desenvolvidos e os recursos efetivamente mobilizados para enfrentar a crise climática.

O presidente citou iniciativas brasileiras como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre e a Aliança Global contra a Fome. Também defendeu que países detentores de minerais críticos participem das etapas de maior valor agregado nas cadeias produtivas ligadas à inteligência artificial e à transição energética.

Apesar dos recados indiretos a Donald Trump, um encontro bilateral entre Lula e o presidente norte-americano foi descartado pelo Palácio do Planalto. A avaliação do governo brasileiro é que uma reunião entre os dois, neste momento, serviria apenas para repetir posições já conhecidas, inclusive sobre tarifas impostas a produtos brasileiros.

Ainda nesta terça-feira, Lula tinha previsão de reunião com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e com o presidente do Conselho Europeu, António Costa. O encontro era considerado o mais importante da agenda brasileira em Évian.

A reunião ocorre em meio à tensão entre Brasil e União Europeia pela suspensão de importações de carne brasileira. Na véspera, António Costa afirmou que o bloco mantém um diálogo construtivo com o governo brasileiro, mas ressaltou que as normas sanitárias precisam ser cumpridas.

Com o discurso no G7, Lula buscou reforçar a posição do Brasil como defensor do multilateralismo, da cooperação internacional e da reforma das regras econômicas globais. Para o governo brasileiro, a mensagem central é que crises como fome, dívida, clima, crime transnacional e desigualdade não serão resolvidas por respostas isoladas, mas por compromissos coletivos mais consistentes.


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