Política / Justiça
Bolsonaro chega ao fim de prazo da prisão domiciliar sob risco de voltar à Papudinha
Defesa espera prorrogação por motivos de saúde, mas apreensão de arma com segurança abriu nova dúvida sobre decisão de Alexandre de Moraes
26/06/2026
13:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) chegou ao fim dos 90 dias de prisão domiciliar concedidos pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), em meio a incertezas sobre a continuidade da medida. Familiares e aliados defendem a prorrogação por razões de saúde, mas a apreensão de uma arma ligada ao ex-presidente com um de seus seguranças aumentou o risco de retorno à unidade prisional conhecida como Papudinha, em Brasília.
A arma foi apreendida na semana passada. Segundo a defesa de Bolsonaro informou à polícia, o segurança levava o equipamento para conserto. Em despacho publicado na quarta-feira (24), Moraes afirmou que o episódio pode representar uma “falta grave” e abrir caminho para a cessação da prisão domiciliar. O ministro pediu manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR), que informou não enxergar, até o momento, falta disciplinar, mas defendeu aguardar o avanço das investigações.
O prazo de 90 dias terminou nesta quinta-feira (25). Interlocutores de Bolsonaro avaliam que Moraes pode estar inclinado a encerrar a prisão domiciliar, embora a posição da PGR seja vista como um fator relevante na decisão. Nos bastidores do Supremo, há ministros que preferem a manutenção do ex-presidente em casa, principalmente por causa do quadro de saúde.
Aliados argumentam que um eventual retorno de Bolsonaro à Papudinha poderia gerar forte turbulência política e ampliar o discurso de perseguição usado por setores bolsonaristas. A avaliação é que a medida também poderia fortalecer a pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência, ao oferecer uma pauta eleitoral centrada na situação do pai.
Do ponto de vista médico, pessoas que estiveram com Bolsonaro durante o período de prisão domiciliar relatam melhora em alguns sintomas, como a redução das crises de soluço. Ainda assim, afirmam que o estado de saúde segue frágil. Registros recentes apontam episódios de cansaço, fadiga, sonolência e baixa disposição, atribuídos também ao uso de medicamentos.
A prisão domiciliar foi autorizada por Moraes após uma internação de Bolsonaro por pneumonia associada às crises de soluço. Antes da decisão, o ministro recebeu pedidos pessoalmente de Michelle Bolsonaro e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), para que o ex-presidente pudesse cumprir a medida em casa.
Durante os três meses, a atuação política de Bolsonaro ficou mais limitada do que aliados imaginavam inicialmente. As restrições de saúde, o controle de visitas e o monitoramento imposto pela Justiça concentraram a comunicação política principalmente em Flávio Bolsonaro, apontado por bolsonaristas como principal porta-voz do pai.
Desde que Bolsonaro tentou romper a tornozeleira eletrônica, em novembro, o contato com lideranças políticas passou a ser ainda mais restrito. Entre médicos, advogados e filhos, Flávio esteve entre as 14 pessoas autorizadas a visitar o ex-presidente no período, sem contar Michelle e as filhas, que não precisam de autorização prévia nem passam pelo mesmo controle do 19º Batalhão da Polícia Militar.
A cada semana, a Polícia Militar informa a Moraes quem entrou na casa de Bolsonaro e por quanto tempo permaneceu no local. Advogados têm limite de 30 minutos por dia com o ex-presidente. Os filhos podem visitá-lo por até duas horas, às quartas-feiras e aos sábados.
Registros mais recentes indicam que, desde 27 de março, quando Bolsonaro deixou o hospital e passou a cumprir a medida em casa, até 17 de junho, Flávio Bolsonaro esteve com ele 26 vezes, ora como advogado, ora como filho. Auxiliares do senador afirmam que ele discute a pré-campanha com o pai sempre que possível e evita tomar decisões estratégicas sem consultá-lo.
Mesmo assim, pessoas próximas dizem que o tempo limitado de contato, as viagens de Flávio pelo país e o ritmo da pré-campanha reduzem a capacidade de Bolsonaro de participar das decisões políticas. A situação, segundo esses interlocutores, gera frustração no ex-presidente.
Durante a domiciliar, Bolsonaro passou a ter uma rotina mais estável, com acesso a alimentação ao longo do dia e acompanhamento médico constante. Quatro médicos e fisioterapeutas se revezaram no atendimento, além de quatro advogados responsáveis pela defesa. Em um dos registros da PM, o ex-ministro Adolfo Sachsida aparece como visitante em 9 de junho, mas o atendimento não ocorreu porque Bolsonaro estava sonolento em razão de medicamentos.
O ambiente político ao redor do ex-presidente também se tornou mais tenso. Michelle Bolsonaro tem afirmado que seu foco é cuidar do marido, embora siga atuando como presidente do PL Mulher e defendendo candidaturas femininas dentro do partido. A ex-primeira-dama se envolveu recentemente em uma crise pública com Flávio Bolsonaro, o que ampliou o desgaste interno no campo bolsonarista.
Aliados do ex-presidente sustentam que a prioridade, neste momento, é preservar sua saúde e mantê-lo em casa. No campo político, a expectativa do grupo é que Bolsonaro continue influenciando, mesmo com limitações, a escolha de palanques estaduais, a definição de uma vice para Flávio e a montagem de eventual equipe econômica em caso de vitória do PL na eleição presidencial.
A decisão sobre a continuidade ou não da prisão domiciliar ficará novamente nas mãos de Alexandre de Moraes, em um momento de forte atenção política e jurídica. Para os aliados, a permanência em casa é tratada como uma questão médica. Para o STF, o caso passa também pela avaliação do cumprimento das regras impostas ao ex-presidente durante a medida.
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