Palmas (TO), Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2026

Artigo

Tire o plástico dos pés

17/02/2026

07:45

WILSON AQUINO

WILSON AQUINO*

O homem moderno se orgulha do progresso. Nunca tivemos tanta tecnologia, tanta praticidade e tanta oferta de produtos. Mas uma pergunta incômoda precisa ser feita: estamos realmente mais saudáveis e mais livres… ou apenas mais dependentes da indústria?

Quem já levou uma pequena descarga elétrica ao tocar outra pessoa ou encostar em um objeto metálico talvez nunca tenha parado para pensar que o próprio estilo de vida moderno pode estar nos isolando da natureza. Pesquisadores vêm estudando o chamado ‘Grounding’, ou ‘Aterramento corporal’, que analisa benefícios do contato direto do corpo com o solo natural. Ainda que as pesquisas estejam em desenvolvimento, já apresentam resultados promissores e levantam uma reflexão inquietante: há poucas décadas, o ser humano mantinha muito mais contato com a terra, com a grama e com o ambiente natural e não enfrentava tantos problemas de saúde como agora.

Hoje, usamos calçados com solados sintéticos, isolantes, praticamente o tempo todo. Não se trata de condenar a tecnologia, mas de questionar se cada avanço realmente representa evolução para a saúde e o bem-estar humano — ou apenas para o mercado consumidor. Ao longo do tempo, fomos perdendo algo essencial: a capacidade de questionar.

A alimentação talvez seja o exemplo mais evidente dessa transformação cultural silenciosa. A chamada “comida de verdade” vem sendo substituída por produtos ultraprocessados, formulações industriais criadas para durar mais, vender mais e estimular o consumo contínuo. Pesquisas da Universidade de São Paulo associam o consumo elevado desses produtos ao aumento da obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, depressão e até alguns tipos de câncer.

Dados do Ministério da Saúde mostram que mais da metade da população adulta brasileira está acima do peso, realidade fortemente ligada ao padrão alimentar moderno. O consumidor raramente percebe que está inserido em uma engrenagem econômica que estimula o consumo constante. Muitos alimentos apresentam rótulos extensos, com ingredientes que grande parte da população sequer reconhece. O alimento deixa de ser nutrição e passa a ser produto.

Outro fenômeno crescente é o surgimento de alimentos que imitam produtos tradicionais, mas que, na prática, são formulações industriais carregadas de aditivos. O iogurte é um exemplo emblemático. Tradicionalmente produzido pela fermentação natural do leite e reconhecido por seus benefícios intestinais, hoje muitas versões industrializadas apresentam elevados índices de açúcar, espessantes, corantes e os chamados “aromatizantes sintéticos idênticos ao natural”.

Descrição que deveria nos deixar apavorados.

E o iogurte não está sozinho. Cremes e requeijões industrializados, queijos processados, achocolatados ricos em açúcar, sucos industrializados, margarinas ultraprocessadas e carnes embutidas representam apenas algumas versões artificiais de alimentos tradicionais, muitas delas associadas por estudos internacionais ao aumento do risco de doenças crônicas.

A história recente da alimentação mostra como percepções podem ser moldadas por interesses econômicos. O ovo já foi tratado como vilão do colesterol e hoje integra uma alimentação equilibrada. A banha animal foi retirada das cozinhas para dar espaço aos óleos vegetais industrializados, que agora também passam por revisões e críticas científicas quanto ao grau de processamento e impactos metabólicos.

O sal refinado, presente em praticamente todas as cozinhas brasileiras, é composto basicamente por cloreto de sódio, enquanto sais naturais (sal grosso) preservam até mais de 80 minerais benéficos para a saúde humana.

Talvez o maior risco da sociedade atual não esteja apenas nos produtos que consumimos, mas na passividade com que aceitamos padrões impostos. Somos influenciados diariamente por campanhas publicitárias sofisticadas, embalagens sedutoras e discursos que associam praticidade à felicidade, enquanto pouco se discute sobre os efeitos silenciosos dessas escolhas ao longo dos anos.

O ser humano passou a confiar mais na propaganda do que na própria natureza. Não se trata de negar o progresso, mas de compreender que crescimento econômico não pode ser confundido com evolução humana.

E quanto ao plástico nos pés, surge uma reflexão inevitável: se estudos começam a indicar que a redução dos isolantes pode favorecer o equilíbrio do organismo pela maior integração com o ambiente natural, será que a própria indústria não passará a desenvolver calçados capazes de resgatar essa conexão perdida? Quem sabe misturas inteligentes de materiais naturais, como o couro, associadas a componentes sintéticos, possam surgir, inclusive no universo esportivo, onde atletas produzem enormes cargas de energia durante provas de alto rendimento, como as maratonas?

Talvez estejamos diante de uma nova fronteira do desempenho humano. Não seria exagero imaginar que, ao permitir que o corpo humano mantenha maior harmonia com as forças naturais que regem a vida, novos limites físicos possam ser superados. Acredito nisso. Acredito até em novos e incríveis recordes no mundo dos esportes. Afinal, o ser humano não é apenas matéria, mas também energia em constante interação com o ambiente que o cerca.

Quando essa interação acontece de forma plena, o corpo tende a encontrar maior equilíbrio, fluidez e eficiência. Permitir que essa energia circule livremente, sem os bloqueios artificiais impostos pelo isolamento excessivo, pode significar não apenas ganhos de desempenho esportivo, mas também um reencontro natural com a energia universal que sustenta e conecta toda a criação — uma energia que representa a própria manifestação de Deus na natureza.

*Jornalista, Professor e Escritor


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