Palmas (TO), Sexta-feira, 03 de Julho de 2026

Cidades / Acidente

Pesquisadora alemã morta em queda de avião estudava tamanduás no Pantanal

Lydia Theresia Möcklinghoff tinha 45 anos, era zoóloga, jornalista científica e seguia para Aquidauana quando a aeronave caiu em Campo Grande

03/07/2026

12:15

DA REDAÇÃO

©DIVULGAÇÃO

A pesquisadora alemã Lydia Theresia Möcklinghoff, de 45 anos, uma das vítimas da queda de avião registrada nesta sexta-feira (3) em Campo Grande, era reconhecida internacionalmente pelo trabalho científico ligado ao Pantanal brasileiro, especialmente aos tamanduás-bandeira. Ela morreu junto com o piloto Henrique Martins, após a aeronave cair nas proximidades do Aeroporto Santa Maria, na saída para Três Lagoas.

Zoóloga, ecóloga tropical, bióloga comportamental e jornalista científica, Lydia dedicou parte importante da carreira ao estudo da fauna silvestre de Mato Grosso do Sul. Ela tinha mestrado em Zoologia pela Universidade de Würzburgo, na Alemanha, e cursava doutorado pela Universidade de Bonn, com pesquisa voltada à conservação de mamíferos no Pantanal.

A pesquisadora integrava o Grupo de Pesquisa em Ecologia Tropical do Museu de Pesquisa Zoológica Alexander Koenig, em Bonn, e também atuava na CO.BRA, unidade dedicada à bioacústica computacional. Seu trabalho envolvia ecologia tropical, comportamento animal e monitoramento automatizado da biodiversidade, com longas temporadas de campo em áreas remotas e alagadas do Pantanal.

Além do Brasil, Lydia realizou pesquisas no norte do país e em uma floresta tropical de montanha no Panamá, onde trabalhou com o povo Naso na documentação de espécies ameaçadas. A atuação tinha como foco contribuir para estratégias de conservação da biodiversidade e proteção de habitats vulneráveis.

A alemã também era autora, palestrante, guia de natureza e comunicadora científica. Produzia e apresentava o podcast “Tierisch!”, da Weltwach, e também participou de produções da revista GEO, além de trabalhos para rádio e televisão. Seus conteúdos tratavam de vida selvagem, ciência, biodiversidade e conservação ambiental.

Entre os livros publicados por Lydia estão “Ich glaub mein Puma pfeift” e “Die Supernasen”, obras voltadas à divulgação científica e à aproximação do público com o universo da zoologia. Ela também utilizava fotografias e ilustrações próprias para apresentar temas ligados à vida animal.

No Pantanal, a pesquisadora mantinha parceria com especialistas brasileiros. A médica veterinária Flávia Miranda, professora da Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus (BA), fundadora e presidente do Instituto Tamanduá, contou que conhecia Lydia havia mais de 10 anos e que as duas mantinham uma relação próxima.

Segundo Flávia, a alemã desenvolveu parte de sua pesquisa de doutorado na região da Barranco Alto, no Pantanal do Rio Negro, com apoio do Instituto Tamanduá em capturas e coletas relacionadas ao estudo dos tamanduás.

“Ela fez o doutorado dela com os tamanduás lá na Barranco Alto e o Instituto Tamanduá era o parceiro dela para fazer as coletas, as capturas. A gente capturou vários tamanduás para ela”, relembrou.

O trabalho de Lydia envolvia o estudo do comportamento dos tamanduás com uso de câmeras trap, equipamento utilizado para registrar animais em ambiente natural sem interferência direta. A pesquisadora também frequentava o Pantanal como guia para estrangeiros interessados em conhecer a fauna local.

A morte causou forte comoção entre pesquisadores ligados à conservação. O presidente e fundador do ICAS, Arnaud Desbiez, destacou que Lydia teve papel importante na divulgação científica sobre o tamanduá-bandeira e o Pantanal.

Segundo ele, a pesquisadora dedicou anos ao estudo da espécie e ajudou a aproximar o público da conservação ambiental. Para o ICAS, a morte representa uma grande perda para a biodiversidade e para a ciência.

Em 2018, Lydia visitou o CRAS, Centro de Reabilitação de Animais Silvestres de Campo Grande, e escreveu sobre os riscos enfrentados por tamanduás-bandeira, principalmente atropelamentos. Ela destacava que, como as fêmeas carregam os filhotes nas costas por vários meses, muitos acabam ficando órfãos após acidentes em rodovias.

Cerca de 16 horas antes do acidente, a pesquisadora havia publicado nas redes sociais um vídeo feito da janela de um avião que deixava o Rio de Janeiro. Ela passou a noite em Campo Grande e seguiria pela manhã para o Pantanal.

A aeronave decolou do Aeroporto Santa Maria com destino a Aquidauana, a cerca de 141 quilômetros da Capital. Os destroços foram encontrados horas depois em uma área de mata, a aproximadamente 50 metros do ponto de decolagem, por um funcionário de hangar que fazia buscas a pé.

Conforme consulta ao Registro Aeronáutico Brasileiro (RAB), da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), o avião de matrícula PT-WYQ aparece como modelo Neiva EMB-810D, fabricado em 1983, com situação normal. O Certificado de Verificação de Aeronavegabilidade (CVA) estava válido até 4 de junho de 2027.

O registro também informa que a aeronave estava autorizada para voo IFR noturno, modalidade em que a navegação pode ser feita com apoio dos instrumentos da cabine. Não havia gravame registrado, ou seja, não constava restrição financeira ou jurídica sobre o avião.

As causas da queda ainda serão investigadas pelos órgãos competentes. A apuração deve considerar as condições meteorológicas, a decolagem, a rota prevista e eventuais fatores técnicos relacionados à aeronave.


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