Saúde / Pesquisa
Viagra reduz avanço de metástases em estudo, mas ainda não é tratamento contra câncer
Sildenafil bloqueou o transporte de colesterol em células tumorais e limitou sua disseminação em testes laboratoriais e modelos animais
23/07/2026
18:30
NAOM
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O sildenafil, princípio ativo do Viagra, demonstrou potencial para dificultar a disseminação de células cancerígenas ao interferir no transporte de colesterol dentro dos tumores. A descoberta abre caminho para avaliar o reaproveitamento do medicamento como terapia complementar contra metástases, mas ainda depende de estudos clínicos antes de qualquer uso na oncologia.
A pesquisa foi conduzida por cientistas do Instituto Weizmann de Ciência, em Israel, em colaboração com pesquisadores e médicos dos Estados Unidos e de instituições israelenses. O trabalho foi publicado em 14 de julho de 2026 na revista científica Cancer Research.
Os experimentos foram realizados com células tumorais humanas cultivadas em laboratório, modelos animais e dados clínicos retrospectivos. Os resultados indicaram redução da capacidade de migração e formação de metástases em diferentes modelos de câncer.
As células cancerígenas dependem do colesterol para formar membranas, produzir energia e sobreviver ao deslocamento até outros órgãos. Essa capacidade é fundamental durante a metástase, processo em que células se desprendem do tumor original, circulam pelo organismo e formam novos focos da doença.
O sildenafil atua bloqueando a enzima PDE5A, responsável pela degradação de uma molécula sinalizadora chamada cGMP. Com a inibição, os níveis de cGMP aumentam dentro das células.
Os pesquisadores descobriram que o excesso de cGMP se liga ao NPC1, uma proteína encarregada de transportar o colesterol para fora dos lisossomos. Com esse bloqueio, o colesterol permanece acumulado nessas estruturas e deixa de chegar a áreas essenciais da célula, como as membranas e as mitocôndrias.
A redução do colesterol disponível comprometeu a produção energética das células tumorais, alterou estruturas das membranas e limitou sua capacidade de migrar e invadir outros tecidos.
O efeito observado foi mais intenso nas células cancerígenas do que nas células não tumorais. Segundo o estudo, parte dos tumores apresenta menor expressão de genes envolvidos no funcionamento dos lisossomos, o que reduz sua capacidade de compensar a interrupção do transporte de colesterol.
Essa vulnerabilidade fez com que as células tumorais sofressem maior perda energética e apresentassem redução mais acentuada na proliferação, migração e formação de metástases.
Os testes pré-clínicos envolveram diferentes modelos de câncer, incluindo tumores de mama, pulmão e cólon. Os autores também trabalharam com culturas produzidas a partir de células de pacientes.
O grupo avaliou ainda a combinação de sildenafil com estatinas, medicamentos usados para diminuir a produção de colesterol no organismo.
Enquanto o sildenafil dificulta a saída do colesterol armazenado nos lisossomos, as estatinas reduzem a produção de novas moléculas. A combinação produziu um efeito antimetastático adicional nos experimentos.
A análise de registros eletrônicos de saúde também identificou maior sobrevida entre pacientes com câncer que utilizaram inibidores da PDE5, sobretudo quando esses medicamentos foram associados às estatinas. Os próprios pesquisadores ressaltam, porém, que esse tipo de análise mostra uma associação e não comprova que o sildenafil tenha causado diretamente o aumento da sobrevida.
Apesar dos resultados, o Viagra não está aprovado como medicamento para impedir metástases e não deve ser usado por pacientes com câncer sem indicação médica.
A pesquisa reúne evidências laboratoriais, testes em animais e análise retrospectiva de prontuários. Ainda são necessários ensaios clínicos controlados para verificar segurança, dose, eficácia e possíveis interações com quimioterapia, imunoterapia e outros tratamentos oncológicos.
A pesquisadora Ayelet Erez, uma das responsáveis pelo estudo, considera relevante testar inicialmente a estratégia em pacientes com câncer de mama triplo-negativo, um subtipo agressivo e com opções terapêuticas mais limitadas.
O fato de o sildenafil já ter um perfil de segurança conhecido pode acelerar futuras pesquisas, mas não elimina a necessidade das etapas formais de avaliação clínica.
A principal contribuição do trabalho é mostrar que o metabolismo do colesterol pode funcionar como um ponto vulnerável das células metastáticas. Segundo os autores, os resultados reforçam que o tratamento do câncer deve considerar não apenas as mutações do tumor, mas também o metabolismo, os medicamentos utilizados e as demais características do paciente.
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