Artigo
Quem lucra com as doenças?
22/02/2026
08:00
WILSON AQUINO*
WILSON AQUINO*
A medicina moderna é uma das maiores conquistas da humanidade. Vacinas, antibióticos, cirurgias, terapias avançadas e diagnósticos cada vez mais precisos salvaram milhões de vidas. É impossível negar: a ciência médica é, em muitos sentidos, um milagre construído com estudo, método e dedicação. O paradoxo é que, mesmo com tanto avanço, nunca convivemos com tantas doenças crônicas ao mesmo tempo — e, pior, cada vez mais cedo. Os números do Brasil chamam atenção. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde com base no Vigitel (2006–2024), a prevalência de diabetes entre adultos mais que dobrou, passando de 5,5% para 12,9%. No mesmo período, a obesidade avançou 118%, e o excesso de peso atingiu patamares alarmantes. (Serviços e Informações do Brasil). Em termos práticos, isso significa uma sociedade que se torna, aos poucos, dependente de um modelo de sobrevivência: um comprimido para controlar, outro para compensar, outro para “equilibrar os efeitos colaterais”. E a vida segue… não necessariamente curada, mas “administrada”.
Não é conspiração. É estrutura. Aqui entra o ponto central: o modelo econômico atual premia mais o tratamento do que a prevenção. Ao mesmo tempo em que a medicina se fortaleceu, a alimentação foi sendo sequestrada pela lógica industrial. Alimentos deixaram de ser alimento e se tornaram produtos: ultraprocessados desenhados para durar mais, viciar mais, vender mais — e custar menos no caixa, mas muito mais no corpo.
A ciência tem reforçado esse alerta. Estudos e análises apontam associação entre maior consumo de ultraprocessados e piores desfechos de saúde; uma meta-análise divulgada e comentada por pesquisadores ligados à USP destacou uma relação dose–resposta, em que aumentos no consumo se associam a aumento no risco de mortalidade por todas as causas. (Jornal USP)
E o custo social desse padrão não é abstrato. Ele aparece no orçamento público. Um estudo publicado na literatura científica de saúde pública estimou que, no Brasil, os custos diretos atribuíveis a hipertensão, diabetes e obesidade somaram R$ 3,45 bilhões (dados referentes a 2018). (SciELO SP). Em outra comunicação do próprio Ministério da Saúde, há referência de que, dos R$ 6 bilhões usados em 2019 no tratamento de doenças crônicas, cerca de R$ 1,5 bilhão foi atribuído ao excesso de peso e à obesidade. (Serviços e Informações do Brasil). Ou seja: paga-se caro para tratar, e investe-se pouco para evitar.
O mais inquietante é que a prevenção, embora seja amplamente defendida em discursos oficiais, raramente ocupa o centro das políticas públicas e das estratégias comerciais. Educar para escolhas saudáveis exige tempo, transformação cultural e, sobretudo, menor rentabilidade imediata. Investir em alimentos naturais, urbanismo que favoreça caminhada, esporte nas escolas e campanhas permanentes de orientação nutricional produz resultados a longo prazo — mas o mercado opera, em geral, na lógica do curto prazo. E nessa engrenagem, o adoecimento constante mantém a máquina girando.
Diante disso, a pergunta ética não é “quem inventou tudo isso?”, mas sim: Que sistema é esse que lucra mais quando a população adoece?
Porque há um círculo vicioso em pleno funcionamento:
1. Ultraprocessados se popularizam (por preço, praticidade e marketing).
2. Crescem obesidade, diabetes, hipertensão.
3. Aumenta a medicalização cotidiana.
4. Dispara o custo do tratamento.
5. A prevenção continua sendo a parte mais fraca da equação.
E o que deveria ser exceção vira rotina. A doença crônica vira “normal”. E a vida vira uma agenda de receitas, exames e renovações.
No artigo “Tire o plástico dos pés”, falamos, na semana passada, em sentido literal e simbólico, sobre o quanto nos afastamos da natureza. A ideia do “isolamento” pode ser lida para além da sola do sapato emborrachado. Estamos isolados do simples: do alimento de verdade, do preparo caseiro, do tempo da mesa, do corpo em movimento, do sol, do chão, do ritmo natural da vida.
E quanto mais a vida se industrializa, mais a saúde se torna dependente de correções artificiais. Talvez a grande revolução não esteja apenas em descobrir novos remédios, mas em reduzir a necessidade deles.
Comida de verdade, atividade física, sono, vínculo social, contato com a natureza, prevenção séria — isso não rende manchetes diárias, mas sustenta o que a medicina, depois, precisa resgatar.
Não se trata de demonizar a indústria farmacêutica nem de negar a medicina — ambas são essenciais. Trata-se de reconhecer que saúde não pode ser apenas mercadoria.
Se o lucro cresce na proporção da dependência, então estamos diante de um dilema civilizatório. Não basta discutir remédios mais modernos ou hospitais mais equipados; é preciso repensar o modelo que transforma comida em produto químico e transforma pessoas em consumidores crônicos de tratamentos. Uma sociedade saudável não é aquela que tem mais farmácias por esquina, mas aquela que precisa menos delas.
Se queremos um país com menos doença crônica, precisamos de um modelo que valorize mais o que sustenta a vida do que o que apenas remedia seus danos. Vamos continuar vivendo “administrados”… ou teremos coragem de reaprender a viver de verdade?
*Jornalista, Professor e Escritor
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