Política / Eleições
Presidenciáveis aceleram busca por vices para ampliar alianças e reduzir resistências
A menos de um mês das convenções, chapas avaliam nomes capazes de agregar partidos, tempo de TV e sinalização ao eleitorado
28/06/2026
09:00
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO/IA
A menos de um mês do início das convenções partidárias, pré-candidatos à Presidência da República intensificaram as negociações para definir quem ocupará a vaga de vice nas chapas eleitorais. Além do peso político, os nomes são avaliados pela capacidade de reduzir resistências no eleitorado, ampliar alianças partidárias e aumentar o tempo de propaganda no rádio e na televisão.
As convenções começam em 20 de julho e seguem até 5 de agosto, período em que os partidos precisam oficializar candidaturas e coligações. Nos bastidores, articuladores das campanhas afirmam que a escolha do vice pode funcionar como uma sinalização estratégica para setores específicos da sociedade, mesmo quando não garante transferência direta de votos.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, já definiu em março que manterá Geraldo Alckmin, do PSB, como vice. Já o senador Flávio Bolsonaro, do PL-RJ, busca uma mulher para compor a chapa. Romeu Zema, do Novo, tenta avançar em acordo com o Podemos, enquanto Ronaldo Caiado, do PSD, e Renan Santos, do Missão, ainda não fecharam nomes.
Segundo o cientista político Carlos Ranulfo, da Universidade Federal de Minas Gerais, o vice cumpre uma função simbólica e política importante dentro de uma campanha presidencial. Para ele, a escolha pode indicar ao eleitorado e a outros partidos qual direção a candidatura pretende tomar.
“O bom vice agrega. Ele pode não necessariamente agregar voto porque o cabeça de chapa é o cabeça de chapa, dificilmente o vice agrega tanta votação assim. Mas o vice é uma sinalização que o partido faz para uma parcela do eleitorado, para a opinião pública e para outros partidos”, avalia Carlos Ranulfo.
Essa lógica explica por que parte dos presidenciáveis tenta evitar uma chapa chamada de “puro sangue”, formada por dois nomes do mesmo partido. A busca, em muitos casos, é por um vice capaz de furar a bolha do eleitorado tradicional e atrair apoios de segmentos onde o candidato principal enfrenta maior resistência.
Outro fator decisivo é a coligação partidária. Um vice indicado por uma legenda maior pode garantir mais tempo de propaganda eleitoral no rádio e na TV, além de ampliar capilaridade política nos estados. Em uma disputa nacional, esse tempo de exposição é tratado como ativo central pelas campanhas.
No caso de Lula, a manutenção de Geraldo Alckmin repete a fórmula usada em 2022, quando o petista buscou sinalizar moderação ao centro ao convidar um antigo adversário político para integrar a chapa. Aliados do vice-presidente defendem sua permanência com base em três pontos: discrição, fidelidade e capacidade de articulação.
A discrição é citada porque Alckmin não disputa protagonismo com Lula. A fidelidade pesa diante do histórico do PT com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Já a competência é lembrada por aliados em razão da atuação dele como ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, especialmente nas discussões contra o tarifaço de Donald Trump.
A decisão, porém, não foi automática. No início do ano, setores próximos ao presidente defenderam a escolha de um vice do MDB, sob o argumento de que o partido poderia ampliar a chapa para além da centro-esquerda e oferecer mais estrutura eleitoral que o PSB. A ideia foi defendida por nomes como Renan Filho e Renan Calheiros, ambos do MDB, mas enfrentou resistências dentro da própria legenda.
Na direita, a campanha de Flávio Bolsonaro trabalha há meses com a possibilidade de escolher uma mulher para a vaga de vice. A estratégia busca melhorar o desempenho entre eleitoras e ganhou mais força depois do vídeo publicado por Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama e madrasta do senador, no qual ela fez críticas públicas a Flávio.
Aliados do senador passaram a tratar a escolha de uma mulher como caminho prioritário. Dentro do PL, articuladores defendem dois critérios considerados centrais: o nome precisa ser feminino e, de preferência, vir de um partido do Centrão, para ampliar o tempo de TV e sinalizar abertura ao centro político.
Entre os nomes mencionados nas conversas estão a deputada federal Simone Marquetto, do PP-SP, a deputada federal Clarissa Tércio, do PP-PE, e a senadora Tereza Cristina, do PP-MS.
Simone Marquetto é citada por vir de São Paulo, maior colégio eleitoral do país, e por ter ligação com o eleitorado católico. Clarissa Tércio, por sua vez, é evangélica e representa Pernambuco, no Nordeste, região historicamente favorável ao PT em eleições presidenciais. Já Tereza Cristina é vista por aliados como um nome com experiência política e forte interlocução com o agronegócio.
Integrantes da campanha avaliam que Tereza Cristina também poderia funcionar como contraponto ao discurso de soberania nacional defendido por Lula, já que a senadora atua contra o tarifaço de Donald Trump. Em abril, porém, ela afirmou em entrevista ao Estúdio i, da GloboNews, que a hipótese era apenas especulação.
O deputado licenciado Eduardo Bolsonaro chegou a defender o nome da deputada federal Julia Zanatta, do PL-SC. Interlocutores mais pragmáticos da campanha, no entanto, resistem à ideia de uma chapa puro sangue e argumentam que o vice precisa trazer consigo um partido maior, como PP ou União Brasil, além de alcançar votos fora da base bolsonarista.
No campo da centro-direita, Romeu Zema, do Novo, tenta acelerar a definição. A expectativa do ex-governador de Minas Gerais é anunciar o vice nos próximos dias. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, ele afirmou que pretende divulgar o nome na próxima semana.
Um dos nomes cortejados é o de Geraldo Rufino, filiado ao Podemos. Segundo interlocutores de Zema, Rufino poderia acrescentar diversidade à chapa por ser um homem negro e por ter uma trajetória pessoal marcada por ascensão social. Ele foi catador de latinhas na juventude e hoje atua como empreendedor, escritor e palestrante.
A eventual escolha também teria peso partidário. Com Geraldo Rufino, Zema poderia abrir caminho para uma coligação com o Podemos, ampliando o tempo de TV do Novo, partido que tem estrutura menor na comparação com siglas tradicionais. As cúpulas das duas legendas já conversaram, mas ainda não há definição. No Podemos, há setores que preferem lançar Rufino ao Senado.
A situação de Ronaldo Caiado, do PSD, é diferente. Na equipe do ex-governador de Goiás, a avaliação é que a decisão sobre o vice deve ficar para o período das convenções. Por enquanto, aliados afirmam que não há nome colocado como prioridade.
Integrantes da campanha de Caiado avaliam que o vídeo de Michelle Bolsonaro contra Flávio Bolsonaro pode alterar movimentos dentro da direita. A leitura é que uma eventual queda de força do senador poderia mudar o tabuleiro e influenciar negociações entre partidos e pré-candidatos.
“A política está entendendo que o vídeo de Michelle pode precificar uma queda de Flávio. Eu acho que ninguém vai se movimentar pra valer depois disso”, afirmou um interlocutor de Caiado.
Aliados do ex-governador consideram que, mais do que um vice com capacidade de agregar simbolicamente, a chapa precisa de tempo de TV para ampliar o conhecimento do eleitorado sobre Caiado. Até agora, porém, nenhum partido grande fechou acordo para compor a candidatura.
Outro presidenciável ainda sem vice definido é Renan Santos, do Missão. Segundo integrantes de sua equipe, não há prazo fechado para a escolha, embora a expectativa seja de definição perto do início das convenções. O cenário considerado mais provável é que o nome venha de dentro do próprio partido, mas conversas com outras siglas não estão descartadas.
A definição dos vices será uma das etapas mais sensíveis da pré-campanha presidencial. Em um ambiente de disputa fragmentada, os candidatos tentam equilibrar identidade política, ampliação de alianças, acesso ao tempo de TV e redução de rejeições em segmentos específicos do eleitorado.
Até as convenções, as negociações devem se intensificar. A escolha de cada vice indicará não apenas a composição das chapas, mas também a estratégia de comunicação e de expansão eleitoral de cada candidatura na corrida presidencial.
Os comentários abaixo são opiniões de leitores e não representam a opinião deste veículo.
Leia Também
Leia Mais
Onde habita a felicidade?
Leia Mais
Lula tenta destravar palanque em Minas, mas PT esbarra em resistência de Marília Campos
Leia Mais
Flávio Bolsonaro tenta encerrar crise com Michelle e defende vice mulher em 2026
Leia Mais
Horóscopo de hoje: domingo favorece decisões práticas e novos movimentos
Municípios