Palmas (TO), Quinta-feira, 16 de Julho de 2026

Política / Comércio Exterior

Governo Lula cita mais de 30 reuniões e rebate acusação dos EUA sobre tarifaço

Planalto afirma que manteve negociações técnicas e ministeriais ao longo de um ano, mas não conseguiu evitar a cobrança adicional de 25%

16/07/2026

10:00

DA REDAÇÃO

©DIVULGAÇÃO

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou ter realizado mais de 30 reuniões com autoridades dos Estados Unidos para tentar impedir a imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. A informação foi divulgada em resposta às acusações de que o Brasil não teria negociado de boa-fé durante o processo.

Os encontros ocorreram em diferentes níveis, com reuniões técnicas, ministeriais e presidenciais. Também houve conversas com o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e com o chefe do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer.

As tratativas começaram após o USTR abrir uma investigação contra o Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, mecanismo utilizado pelos Estados Unidos para apurar práticas consideradas prejudiciais às empresas e aos exportadores norte-americanos.

A investigação foi concluída na quarta-feira (15) e resultou na aplicação da nova tarifa, que começa a valer em 22 de julho de 2026.

Governo contesta acusação de falta de diálogo

Após o anúncio da medida, Marco Rubio afirmou que o governo brasileiro não teria negociado de boa-fé com os Estados Unidos.

Segundo o secretário, o presidente Donald Trump determinou a aplicação da tarifa porque Lula e sua equipe não teriam demonstrado disposição suficiente para alcançar um acordo.

O governo brasileiro rejeita essa versão e sustenta que participou ativamente de todas as etapas de negociação.

Interlocutores do Palácio do Planalto afirmam que, além das reuniões técnicas, foram realizados 11 encontros ministeriais com representantes do governo norte-americano.

Desse total, Jamieson Greer teria participado de quatro reuniões com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa.

Durante esses encontros, o Brasil teria apresentado propostas para evitar a cobrança, mas nenhuma delas foi aceita pelo governo norte-americano.

Pix aparece entre os pontos questionados

A investigação conduzida pelo USTR analisou diferentes políticas brasileiras consideradas prejudiciais aos interesses comerciais dos Estados Unidos.

Entre os principais pontos citados está o Pix, sistema de pagamentos instantâneos administrado pelo Banco Central, mencionado mais de 20 vezes no relatório norte-americano.

O documento também questiona a regulação de plataformas digitais e decisões relacionadas a empresas como X, Meta e Google.

Outros temas incluídos na investigação foram o combate à corrupção, o desmatamento ilegal na Amazônia e no Cerrado e determinadas políticas comerciais adotadas pelo Brasil.

O governo brasileiro considera as acusações infundadas e afirma que apresentou dados para rebater cada uma delas.

Brasil anuncia medidas de reciprocidade

Logo após a confirmação da tarifa, o governo Lula informou que iniciará os procedimentos para acionar a Lei de Reciprocidade Econômica.

A legislação permite que o Brasil aplique medidas equivalentes contra países que imponham barreiras comerciais unilaterais aos produtos nacionais.

A resposta pode envolver sobretaxas, suspensão de concessões comerciais ou outras medidas destinadas a compensar os prejuízos sofridos por empresas brasileiras.

O governo também pretende levar novamente a discussão ao sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Planalto chama episódio de marco lastimável

Em nota oficial, o governo brasileiro classificou a decisão norte-americana como um “marco lastimável” nas relações entre os dois países.

O comunicado afirma que não existe justificativa para a imposição de medidas unilaterais contra o Brasil e destaca que os Estados Unidos acumularam superávit de US$ 424,5 bilhões no comércio de bens e serviços com o país nos últimos 15 anos.

A nota também afirma que o governo manteve diálogo permanente com o USTR durante o período da investigação, apresentando informações para contestar as alegações de práticas comerciais desleais.

Governo acusa família Bolsonaro de colaborar com medida

O Palácio do Planalto também atribuiu parte do desfecho da investigação à atuação política da família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Na nota, o governo acusa integrantes do grupo de terem colaborado com iniciativas contra os interesses econômicos do Brasil por objetivos eleitorais.

A declaração foi divulgada depois de integrantes da família Bolsonaro manterem encontros com autoridades norte-americanas e defenderem críticas ao governo Lula durante viagens aos Estados Unidos.

Aliados de Bolsonaro, por outro lado, responsabilizam o presidente brasileiro pela deterioração das relações com o governo Trump.

Tarifa terá extensa lista de exceções

A sobretaxa de 25% não será aplicada a todos os produtos brasileiros. O documento divulgado pelo governo norte-americano apresenta uma ampla relação de mercadorias isentas.

Entre os itens que ficaram fora da cobrança estão café, carne bovina, peixes, laranja, terras-raras, insumos farmacêuticos e determinados materiais ligados à aviação civil.

Também foram preservadas matérias-primas que os Estados Unidos não produzem em quantidade suficiente ou que são consideradas essenciais para cadeias produtivas do país.

Produtos atingidos pela cobrança

Entre as mercadorias que serão submetidas à tarifa estão etanol, máquinas agrícolas, calçados, vestuário, açúcar, papel e diferentes tipos de produtos químicos.

Equipamentos de mineração, ferramentas de jardinagem, componentes de borracha para veículos e molduras de madeira também aparecem entre os itens alcançados.

A lista inclui ainda a celulose de dissolução de alta pureza, que havia sido incluída inicialmente entre as possíveis exceções, mas acabou retirada da relação final.

Algumas substâncias químicas permaneceram isentas apenas quando destinadas à indústria farmacêutica. O uso dos mesmos produtos em outros segmentos estará sujeito à nova cobrança.

Medida entra em vigor em 22 de julho

A tarifa começará a ser aplicada aos produtos brasileiros que entrarem no mercado norte-americano a partir de 22 de julho.

Segundo o USTR, a decisão foi tomada após uma investigação de aproximadamente um ano, que concluiu que determinadas práticas brasileiras seriam discriminatórias e prejudiciais à competitividade de agricultores, trabalhadores, empresas e exportadores dos Estados Unidos.

O governo brasileiro afirma que continuará negociando, ampliando mercados e adotando medidas para proteger os setores atingidos, preservar empregos e reduzir os impactos sobre a economia nacional.


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