Palmas (TO), Terça-feira, 28 de Julho de 2026

Saúde / Comportamento

TDAH vai além da falta de atenção e exige diagnóstico preciso para tratamento adequado

Especialistas explicam que o transtorno tem origem neurobiológica, pode persistir até a vida adulta e requer abordagem individualizada para reduzir impactos na rotina.

28/07/2026

07:15

DA REDAÇÃO

©REPRODUÇÃO

Esquecer compromissos, perder objetos com frequência, deixar tarefas pela metade ou enfrentar dificuldades para manter a concentração nem sempre significa apenas distração. Quando esses comportamentos surgem ainda na infância, persistem ao longo dos anos e comprometem o desempenho escolar, profissional ou social, podem indicar o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

Embora seja um dos transtornos do neurodesenvolvimento mais conhecidos, o TDAH ainda é cercado por preconceitos. Pessoas com o diagnóstico frequentemente são classificadas como desorganizadas, desinteressadas ou sem disciplina, interpretações que não refletem a realidade clínica da condição.

Segundo a professora de Psicologia Mariana Ramos, da Afya Centro Universitário Itaperuna, o transtorno possui bases neurobiológicas bem definidas e está relacionado ao funcionamento das áreas cerebrais responsáveis pela atenção, pelo controle dos impulsos e pelas chamadas funções executivas, responsáveis pelo planejamento, organização e execução de tarefas.

“Não se trata de falta de disciplina ou de interesse. O TDAH é uma condição neurobiológica que interfere na forma como o cérebro organiza e executa comportamentos direcionados a objetivos”, explica a especialista.

Diagnóstico depende de avaliação clínica

Os primeiros sinais costumam aparecer antes dos 12 anos, mas muitas pessoas só recebem o diagnóstico na adolescência ou na vida adulta. Isso acontece porque alguns pacientes conseguem desenvolver estratégias para compensar as dificuldades durante a infância, adiando a identificação do transtorno.

De acordo com o médico psiquiatra Rodrigo Eustáquio, professor da pós-graduação em Psiquiatria da Afya Vitória, o diagnóstico é essencialmente clínico e não pode ser confirmado por exames laboratoriais ou de imagem.

“O diagnóstico do TDAH é essencialmente clínico. Não existe exame de sangue, ressonância magnética ou qualquer outro exame que confirme o transtorno”, afirma.

A investigação envolve entrevista detalhada, análise do desenvolvimento do paciente, histórico escolar, desempenho profissional e avaliação do impacto dos sintomas na rotina. Os especialistas também ressaltam a importância de excluir outras condições que podem apresentar manifestações semelhantes, como ansiedade, depressão, distúrbios do sono e dificuldades específicas de aprendizagem.

A avaliação segue critérios estabelecidos pelo DSM-5-TR e pela Classificação Internacional de Doenças (CID), podendo ser complementada por entrevistas estruturadas e avaliação neuropsicológica quando necessário.

Sintomas não são iguais para todos

O TDAH pode se manifestar de formas diferentes. Algumas pessoas apresentam predominância da desatenção, caracterizada por dificuldade para manter o foco, organizar atividades, administrar o tempo e concluir tarefas.

Em outros casos, predominam sintomas de hiperatividade e impulsividade, como inquietação constante, dificuldade para permanecer sentado, interrupções frequentes durante conversas e atitudes impulsivas.

Também existe a forma combinada, que reúne características dos dois perfis. Segundo Rodrigo Eustáquio, a apresentação dos sintomas pode variar conforme a idade e o sexo.

“As meninas costumam apresentar mais frequentemente o subtipo predominantemente desatento, enquanto os meninos apresentam, com maior frequência, a forma combinada. Na idade adulta, a hiperatividade tende a diminuir, mas permanecem dificuldades relacionadas principalmente à atenção e à organização”, destaca.

Muito além da dificuldade de concentração

Os especialistas lembram que o transtorno não afeta apenas a capacidade de concentração. Alterações nas funções executivas comprometem a organização, o planejamento, o controle dos impulsos, o cumprimento de prazos e a capacidade de finalizar atividades.

Segundo Mariana Ramos, muitas pessoas sabem exatamente o que precisam fazer, mas encontram enorme dificuldade para iniciar ou concluir uma tarefa.

Outro aspecto pouco conhecido é o chamado hiperfoco, período em que a pessoa consegue manter intensa concentração em atividades de grande interesse, enquanto enfrenta dificuldades para executar tarefas consideradas pouco estimulantes.

Procrastinação, esquecimentos frequentes e problemas na percepção do tempo também fazem parte das manifestações do transtorno e estão relacionados ao funcionamento cerebral, e não à falta de esforço.

Consequências podem afetar toda a vida

Os impactos do TDAH vão além da aprendizagem. A convivência constante com críticas e cobranças pode favorecer o desenvolvimento de baixa autoestima, ansiedade e depressão.

“Durante muitos anos, essas pessoas escutam frases como ‘você é inteligente, mas não se esforça’ ou ‘você nunca termina o que começa’. Esse histórico pode provocar sofrimento emocional importante”, afirma Mariana Ramos.

Para Rodrigo Eustáquio, o diagnóstico correto permite compreender a origem das dificuldades e iniciar estratégias que favoreçam o desenvolvimento pessoal, acadêmico e profissional.

Tratamento deve considerar as necessidades de cada paciente

Não existe um único tratamento para o TDAH. A abordagem depende da idade do paciente, da intensidade dos sintomas e da presença de outras condições associadas.

O acompanhamento pode incluir medicamentos, quando indicados pelo médico, Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), reabilitação neuropsicológica, orientação familiar e adaptações no ambiente escolar ou de trabalho.

Além disso, especialistas recomendam medidas práticas, como criar rotinas estruturadas, reduzir distrações e desenvolver estratégias de organização e planejamento.

“O objetivo do tratamento não é apenas reduzir os sintomas, mas melhorar a qualidade de vida, favorecer a autonomia e permitir que cada pessoa desenvolva todo o seu potencial”, conclui o psiquiatra.

Os especialistas reforçam que nem toda dificuldade de atenção significa TDAH. Diante de sintomas persistentes e prejuízos nas atividades do dia a dia, a orientação é procurar profissionais qualificados para uma avaliação clínica completa e um tratamento baseado em evidências científicas.


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